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Lula inicia sua campanha de reeleição com a esperança de trazer os trabalhadores de volta ao seu Partido dos Trabalhadores.

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O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva deu início oficialmente à sua campanha de reeleição em um estádio histórico onde, 30 anos antes — em 1979 —, havia discursado para 60 mil metalúrgicos sem o auxílio de sistema de som.
O Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, homenageia o movimento sindical que impulsionou a trajetória de Lula até se tornar o primeiro presidente do Brasil oriundo da classe trabalhadora.

Lula agradeceu a “todos os trabalhadores deste país que acreditaram que alguém como eles poderia fazer mais”, ao discursar no domingo para uma multidão estimada em 20 mil apoiadores que usavam fitas vermelhas de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).
Lula enfrenta dificuldades para motivar uma nova geração que depende fortemente de aplicativos digitais e está distante do chão de fábrica ou dos sindicatos que, outrora, formaram a base de seu partido, o Partido dos Trabalhadores.
Lula apontou que houve “mudanças significativas” no mundo do trabalho após a derrota de seu grupo político em eleições municipais importantes em 2024. Ele afirmou, então, que “nossa mensagem precisa mudar e se adaptar a um ambiente no qual o trabalho não envolve necessariamente um emprego formal e registrado”.

Antes da votação de outubro, o PT busca angariar apoio defendendo uma jornada de trabalho reduzida e propondo proteções para trabalhadores de aplicativos — abrangendo remuneração, condições de trabalho e benefícios previdenciários, bem como a regulação dos algoritmos das plataformas.
A resistência das empresas tem, na prática, inviabilizado os esforços até o momento, e milhões de trabalhadores de aplicativos — em sua maioria homens jovens — permanecem céticos em relação à intervenção do governo. Flavio Bolsonaro está pronto para enfrentar esse grupo na Justiça.

Economia de bicos

O dilema de Lula reside no aumento sem precedentes de ocupações fora do sistema de emprego formal do Brasil, o qual assegura aos trabalhadores diversos direitos trabalhistas e benefícios previdenciários.
Desde dezembro de 2010 — e apesar de o desemprego ter atingido seu nível mais baixo da história, 5,1%, no final de 2025 —, os índices de emprego formal caíram significativamente, passando de 46,7% para 38,2% da população ocupada.

“Que tipo de futuro vocês prefeririam se não investíssemos em empregos?”, perguntou Lula aos seus apoiadores no domingo. “Criamos mais de 10 milhões de empregos formais nos últimos três anos e meio; é isso que significa ‘pensar no seu futuro’.”
Darlan Almeida, de 27 anos, costumava ter um emprego fixo, mas hoje ganha mais fazendo entregas por meio de aplicativos em sua motocicleta. Seu pai trabalhava em uma fábrica perto de São Bernardo do Campo; Almeida diz não ter filiação política, mas acredita que o governo não compreende plenamente o que os trabalhadores esperam dele.
“Eles não entendiam nossas necessidades nem como o trabalho funciona.” Almeida sugeriu que eles passassem um dia inteiro nas ruas conosco.
Almeida, um dos 2,1 milhões de brasileiros que trabalham por meio de plataformas digitais (uma força de trabalho que cresceu 170% entre 2015 e 2025), faz parte de uma estimativa do Banco Central do Brasil baseada em dados de pesquisas fornecidos pelo IBGE.
Eduardo Marini (51), motorista da Uber, reclama das condições de trabalho, mas afirma que a flexibilidade compensa quaisquer benefícios de um emprego formal. Além disso, regulamentações governamentais poderiam restringir sua autonomia.
Oswaldo Amaral, pesquisador de opinião pública da Universidade de Campinas, relatou que os trabalhadores têm sido convencidos — tanto pelas plataformas digitais quanto pelo medo de intervenção governamental — a votar em políticos de direita, que são mais flexíveis em questões de regulamentação.

Amaral afirma: “A percepção que as pessoas têm do governo é a de que ele apenas intervém e cobra impostos”.
Marini identificou-se — assim como 40% dos trabalhadores de plataformas — como alguém de direita em uma pesquisa realizada pela Uber e sua parceira brasileira iFood em 2023. Além disso, 40% se identificaram como de centro, enquanto apenas 20% se declararam de esquerda.

Crise de identidade

Lula tentou regulamentar o trabalho via aplicativos em 2024, mas não obteve sucesso devido à forte oposição das gigantes de tecnologia e à desconfiança dos trabalhadores em relação a elas. Agora, seu governo fará uma nova tentativa; no entanto, como o Congresso está travando a proposta legislativa, essa tentativa também pode fracassar.
Esses desafios refletem a situação de um partido fundado na organização trabalhista, mas que enfrenta dificuldades para se conectar com trabalhadores afastados das estruturas de emprego tradicionais e dos sindicatos.
Segundo estatísticas oficiais, a taxa de sindicalização no Brasil caiu quase pela metade desde 2014, passando de 15,7% naquele ano para 8,9% em 2024.
Marco Teixeira, professor de ciência política da Fundação Getulio Vargas, acredita que o Partido dos Trabalhadores não transmite uma mensagem clara aos trabalhadores que atuam remotamente por meio de aplicativos, sem supervisão direta.
Edinho Silva elogia a recente reflexão crítica feita por Edina Madureira, observando que sindicatos e grupos de esquerda precisam compreender melhor as condições de trabalho dos trabalhadores informais, especialmente porque “não conversam com eles, não os organizam nem se envolvem em suas vidas”.

PROCURA-SE AJUDA

Rogerio do Snto, de 43 anos e motorista da Uber há sete, deixou a plataforma recentemente, pois as tarifas baixas reduziram seus ganhos e não existe uma representação organizada de motoristas para negociar melhores condições. Ele afirma que há pouco poder de barganha ao tentar negociar uma remuneração melhor.
Ele reclamou: “Não há ninguém aqui representando nossos interesses ou defendendo nossa causa”. Esses comentários ilustram a intenção do PT de se aproximar de trabalhadores como ele — que não se veem como membros ou funcionários, mas que, ainda assim, precisam de proteção.
Em 2025, o PT encomendou uma pesquisa que revelou que 65% dos trabalhadores informais aspiravam a se tornar empreendedores, enquanto apenas 27,5% preferiam empregos formais; no entanto, 56% dos entrevistados afirmaram considerar proteções como auxílio-doença e benefícios por acidente de trabalho “essenciais”.
Quanto à organização coletiva, as opiniões se dividiram. Quase 40% indicaram que se filiariam a um sindicato, enquanto uma porcentagem igual indicou que não o faria.
Flavio Bolsonaro lançou sua campanha presidencial na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no domingo, diante de uma multidão entusiasmada vestida majoritariamente com as cores verde e amarela do Brasil. Bolsonaro anunciou que, caso vencesse, sua gestão implementaria o programa “Minha Primeira Empresa”, sem fornecer mais detalhes.
Ele prometeu promover parcerias entre universidades, setor privado e órgãos governamentais para impulsionar a tecnologia e a inovação, garantindo que os jovens adultos não fiquem apenas com diplomas pendurados na parede, mas tenham acesso a empregos após a graduação.
Reportagem de Lisandra Paraguassu, com cobertura adicional de Rodrigo Viga Gaier, Victoria Pacheco e Isabel Teles. Edição de Brendan O’Boyle, Brad Haynes, Nia Williams e Mark Porter.

 

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